Algumas ideias-chave deste livro
“Nem tudo o que é velho e passado é histórico, nem tudo é digno de prevenção, preservação e conservação. As opções de conservação dependem de sistemas de valores e de culturas, de concepções historiográficas e estéticas, que cada época suporta, não são quadros mentais estáticos de apreciação abstracta. Endeusar soluções e opiniões contemporâneas é impedir que a dúvida, que despoleta toda a investigação e reflexão teórica e crítica, se possa libertar das nossas convicções. Por isso, a obsessão da salvaguarda de certas imagens que nos sugerem arquétipos de vida, não se pode sobrepor à própria vida. Se, simbolicamente, a conservação se traduz numa vitória temporária sobre a morte, ela não pode significar o atrofiamento das perspectivas da vida.”
“(…) estar a preparar Alunos para uma das mais belas profissões do mundo sem que se incentive e institucionalize a discussão ética e deontológica do seu estatuto, é reduzir a visibilidade social e as perspectivas da sua profissão. É necessário que as escolas, para além de formarem, estudem, também, um código profissional dos conservadores-restauradores que os retire da menoridade social de práticas e de estatutos técnico-profissionais para os quais ainda estão actualmente remetidos. É suposto que as escolas, mais do que gerirem o acanhado presente, tenham a ousadia de interrogar, planear. E trazerem, assim, qualquer coisa que se assemelhe a futuro para o interior das suas salas.”
“O século XIX descobriu o potencial criador de virtudes cívicas que a escola representava: ela passou a constituir o vértice da aprendizagem da cidadania, essa espécie de última edição, remodelada, do Novo Testamento – ou da luz do fogo sagrado que Prometeu ditava agora aos homens do presente. Mais do que ensinar, a escola agora destinava-se, por imperativo ideológico, a moldar, configurar, fabricar consciências e atitudes. Esse processo conduziu, em troca, à criação de uma consciência de cidadania, sobretudo nos meios letrados. Os professores deveriam ser missionários laicos ou, até, sacerdotes das novas religiões cívicas e do espírito da laicidade, quando os catecismos positivista e cientista substituíram os velhos missais nas cabeças dos lentes ou dos mestres-escola.
Aprendiam-se nas aulas cartapácios e tratados, bátegas de coisas e bestialidades de livros que deixavam aos alunos a vaga sensação de terem sido transformados – como se fosse mítico metamorfismo desprendido da fábula poética – em autênticas bestas . Esta correspondência com o reino animal é clara. Na Universidade portuguesa oitocentista não se dizia “estudar” mas “marrar”, e aluno de excepção era logo crismado com nome de animal, era um urso. Os excepcionalmente medíocres também eram assimilados aos animais e por qualquer motivo, talvez pela proverbial teimosia, ou pelo chocalho som do zurro, eram epitetados de burros. Dos inteligentes, em demasia, se dizia possuírem o voo da águia. A própria Universidade se auto-representava como o alto lugar onde pairam os mochos, ou seja, a rara espécie dos animais inteligentes.”