Tomar

Blogue sobre Tomar, a sua história e actualidade

Leonel Vicente
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Archive for the ‘Literatura’


A Epopeia Templária e Portugal

A vasta bibliografia dedicada à Ordem do Templo, no estrangeiro e em Portugal, mesmo a que privilegia a objectividade histórica, raramente prescinde do recurso ao imaginário esotérico para tentar explicar os seus aspectos obscuros ou lendários. Ora, a realidade documentada da gesta templária é, por si só, tão fascinante que dispensa lucubrações herméticas e divagações mais ou menos fantasiosas. Este livro, tentando aclarar aspectos relevantes dalinguagem simbólica, cara ao medievalismo ocidental, pretende, fundamentalmente, evidenciar o importante contributo dos freires-cavaleiros da Ordem do Templo para a formação de Portugal e para a Reconquista cristã do território da Península Ibérica, bem como adecisiva acção da Ordem de Cristo, sua sucessora, na empresa dos Descobrimentos.

Usos e Cerimónias da Nossa Ordem de Cristo - Excerto (III)

“Quando haja alguma ocupação antes ou depois da Missa, a saber: Procissão, Profissão, Comunhão ou qualquer outra ocupação fora do ordinário, ou o Padre Dom Prior faça Pontifical, o Sacristão ou o Reverendo das Cerimónias comunicará com o Prelado quando se há-de tanger a hora antes da Missa.

As vésperas se dirão às 3 horas da Páscoa até à Exaltação da Cruz de Setembro, exclusive, e deste dia até ao mesmo da Páscoa se dirão às 2 horas; excepto na Quaresma, que se dirão imediatamente depois da Missa do dia, e nas Domingas da Quaresma se dirão depois de se tanger à pregação, havendo sermão à tarde, ao qual se tangerá o sino Meão à uma hora depois do meio-dia.

As Completas se dirão às 7 horas e meia da tarde, da Páscoa até à véspera da Cruz de Setembro, inclusive, excepto nos dias que se cantarem, que se dirão às 7 horas; em o mais tempo às 5 e meia, o mesmo será na Quaresma quando sejam dias grandes e parecer ao Prelado; nas Domingas da Quaresma se dirão imediatamente acabado o sermão. Sucedendo caso que todas estas cosas, ou algumas delas, se não possam dizer nos tempos aqui declarados, os Prelados, com seus deputados, ordenarão como convier a tal necessidade, havendo de durar mais de um mês; mas por menos tempo o Prelado o poderá fazer por si só.”

(”Usos e Cerimónias da Nossa Ordem de Cristo”, José Medeiros, Ed. Zéfiro)

Usos e Cerimónias da Nossa Ordem de Cristo - Excerto (II)

“A Sexta em dias simples feriais e Sábados de N. Senhora se diz antes da Missa Conventual e se tangerá a ela um quarto depois da hora que se tange a Terça antes da Missa; porém, em dias de jejum e quando se diga Missa solene de defuntos, dir-se-á com a Prima a Terça.

A Noa se dirá da Páscoa até à Santa Cruz de Setembro exclusive, ao meio-dia; e da Santa Cruz até à Quinquagésima, Domingas do Advento e Quaresma e quando no Verão se saia da refeição do jantar dadas onze horas, ou pouco antes, parecendo ao que preside se dirá a Noa, onde ordinariamente se dão as graças; elas acabadas se tangerá a Noa o sino ordinário, quando se faz sinal à mesa segunda em dias de jejum, e quando se faça ofício solene de defuntos se dirá a Noa antes da Missa Conventual, conforme ao tempo.”

(”Usos e Cerimónias da Nossa Ordem de Cristo”, José Medeiros, Ed. Zéfiro)

Usos e Cerimónias da Nossa Ordem de Cristo - Excerto (I)

Capítulo 1º

A que hora e por que ordem se faz o ofício Divino.

“As Matinas se dizem por todo o ano à meia-noite excepto dia de Natal, Sexta-feira e Sábado Santos e dia de Páscoa da Ressurreição, que se dizem às horas que em seu lugar se verá. A Prima se dirá às 5 horas e meia da manhã, da primeira Dominga da Quaresma até à Santa Cruz de Setembro exclusive; e da Santa Cruz até dia dos finados se dirá às 6 horas. De dia dos finados inclusive até dia de Nossa Senhora das Candeias exclusive se dirá às 6 e meia e de dia das Candeias até a primeira Dominga da Quaresma exclusive se dirá às 6 horas como dantes. A hora em que se diz imediata, antes da Missa do dia, será às 8 horas da primeira Dominga da Quaresma até Santa Cruz de Setembro exclusive, advertindo o Sacristão que nos dias feriais da Quaresma mandará tanger às 9 horas e meia e nos dias de jejum às 10 pela roda do ano e do dia da Exaltação da Cruz por diante se dirá às 9 horas em dias simples feriais e sábados de N. Senhora se dirá a Terça com a Prima.”

 (”Usos e Cerimónias da Nossa Ordem de Cristo”, José Medeiros, Ed. Zéfiro)

Usos e Cerimónias da Nossa Ordem de Cristo

Usos e Cerimónias da Nossa Ordem e CristoÉ lançada este Sábado (pelas 19 horas) no Convento de Cristo (”Sala das Talhas”) a obra “Usos e Cerimónias da Nossa Ordem de Cristo”, editada pela Zéfiro, com apresentação de José Medeiros.

Esta obra constitui um documento inédito sobre a Ordem de Cristo – revelando, com grande detalhe, o dia-a-dia dos freires desta Ordem – pela primeira vez publicado, desde a sua edição original em 1741.

Para além da transcrição do manuscrito, esta obra contém uma breve história da Ordem de Cristo, a sua cronologia pormenorizada, um glossário, bem como um estudo dos Usos e Cerimónias da Nossa Ordem de Cristo, da autoria de José Medeiros - permitindo imaginar como seria a vivência diária dos freires de Cristo, no Convento de Tomar, depois da reforma ordenada por D. João III, e que se deve ter mantido sem grandes alterações até à extinção das ordens monásticas em Portugal, ordenada por D. Pedro IV em 1834.

Pode consultar o índice da obra… e, também, ler um excerto.

Convento de Cristo, O Codex 632, e o Ciberescritas

No passado mês de Março, José Rodrigues dos Santos, autor do livro “O Codex 632” visitou, juntamente com um grupo de jornalistas americanos, os locais de acção da obra, desde o Convento de Cristo à Quinta da Regaleira em Sintra, passando pelo Mosteiro dos Jerónimos, Torre de Belém e Padrão dos Descobrimentos.

Isabel Coutinho, autora do novel blogue Ciberescritas, fez a reportagem para o jornal Público, tendo preparado também um vídeo com imagens das visitas:

“GUERREIROS DE CRISTO” (XIII)

“A perseguição não atingiu da mesma maneira os templários de toda a Europa. Fora de França, a tortura foi menos usada para extrair confissões aos cavaleiros. Por isso, pode supor-se que foi com a honra intacta que alguns deles ingressaram na nova ordem criada por D. Dinis em 1318: a Ordem de Cristo.

Na realidade, não há consenso entre os historiadores sobre a composição da nova confraria: para alguns, os templários portugueses (presentes no país desde os tempos de Hugo de Payns) teriam simplesmente adoptado uma nova designação. De qualquer maneira, a Ordem de Cristo herdou todas as propriedades e fortalezas da sua antecessora, assim como os votos de pobreza, castidade e obediência (ao rei de Portugal, que obviamente sabia o que fazia).

Ao longo do século seguinte, os consideráveis recursos militares e económicos da ordem, que passou a ser comandada pelo Infante D. Henrique, foram direccionados para a expansão marítima portuguesa, que começava a ganhar impulso. A Ordem de Cristo teria soberania sobre os territórios que conquistasse em África e receberia a vintena (cinco por cento) do valor de todos os bens importados das novas terras.

Novas mudanças libertaram os cavaleiros do seu voto de castidade e pobreza, permitindo que nobres como Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama se tornassem membros da Ordem de Cristo. Os navios que reconheceram a costa de África e descobriram o Brasil e o caminho marítimo para a Índia levavam nas suas velas o emblema da confraria, aparentemente uma versão modificada da antiga cruz templária.

Foi no castelo de Tomar, fundado pelo templário Gualdim Pais, que se instalou a sede da Ordem de Cristo.”

Revista “Super Interessante”, nº 97, Maio de 2006

“GUERREIROS DE CRISTO” (XII)

“Mesmo extintos, os templários ainda dariam origem a mais uma lenda: a de que a perseguição apenas fez os membros mais importantes sair de cena e continuar a promover em segredo os seus interesses místicos. Para isso, ter-se-iam ligado ao Priorado do Sião, uma ordem que permaneceria até aos nossos dias e que teria tido, entre os seus líderes, o pintor Leonardo da Vinci e o físico Isaac Newton. O grupo guardaria os principais segredos da origem do cristianismo, como o Graal e a linhagem de supostos descendentes de Jesus e Maria Madalena.

A história, divulgada em livros como O Código Da Vinci, é uma das principais responsáveis pelo renascimento do interesse nos templários. O problema é que são poucos os documentos que provem a existência do Priorado de Sião e não há um único que o ligue aos templários. Para os historiadores sérios, não faz sentido.

Porém, o fim dos templários não foi desprovido de drama e mistério. Na cadeia, Jacques de Molay e o seu companheiro Geoffroy de Charney tiveram um último gesto de coragem: renegaram a sua confissão de heresia e pereceram na fogueira em 1314.

Reza a lenda que Jacques de Molay convocou o rei e o papa a comparecerem diante do tribunal de Deus antes de o ano terminar. Pelos vistos, a praga era boa: Filipe, o Belo, e Clemente V morreram antes do fim do ano.”

Revista “Super Interessante”, nº 97, Maio de 2006

Para saber mais:
- The New Knighthood - A History of the Order of the Temple, Malcolm Barber, Cambridge University Press, Reino Unido, 1995
- Ordem do Templo - Em Nome da Fé Cristã, Pedro Silva, Ulmeiro, 2000
- http://faculty.smu.edu/bwheeler/chivalry/bernard.html - Carta de Bernardo de Claraval a Hugo de Payns

“GUERREIROS DE CRISTO” (XI)

“Praticamente nenhum historiador vê traços de verdade nessas histórias. Há quem suponha que o tal Baphomet fosse, na realidade, a relíquia de um santo, ou que a negação de Cristo fizesse parte das técnicas templárias para escapar com vida das prisões muçulmanas, fingindo ter-se convertido, mas a história da ordem não parece apoiar essas especulações.

A verdade é que até o papa Clemente V criticou as prisões arbitrárias. Foi aberto um processo papal para averiguar as acusações; muitos templários tinham confessado a sua culpa, sob tortura, mas depois voltaram atrás perante os enviados de Clemente.

A intenção era corajosa, mas resultou na morte de 54 membros da ordem: segundo as regras da Inquisição, hereges confessos que voltassem atrás deveriam ser imediatamente executados. Jacques de Molay, que era analfabeto e pelos vistos pouco inteligente, disse que não tinha estudos suficientes para ser o advogado da ordem e ficou à espera de que o papa o salvasse.

A investigação papal em toda a Europa encontrou pouquíssimas provas de heresia, mas a pressão de Filipe continuava e Clemente V acabou por concordar com a dissolução da ordem, em 1311. O rei conseguiu alguns bens dos templários, mas de forma clandestina: a decisão do papa foi legá-los aos hospitalários, enquanto os ex-cavaleiros entravam para mosteiros de outras ordens ou se tornavam mercenários.”

Revista “Super Interessante”, nº 97, Maio de 2006

“GUERREIROS DE CRISTO” (X)

“Um dos projectos do rei era unir as duas ordens numa única, de preferência tendo-o a si próprio como grão-mestre, e liderar uma nova cruzada para retomar Jerusalém. O plano não foi por diante e Filipe decidiu tomar medidas drásticas: em 1307, ordenou secretamente a prisão dos 15 mil templários de França.

As razões exactas pelas quais o rei de França decidiu acabar com o Templo não são muitas claras, mas tudo indica que ele queria tomar posse das consideráveis propriedades dos templários e talvez visse as derrotas na Terra Santa como uma deixa propícia para atacar.

O próprio Jacques de Molay foi preso, dias depois de ajudar a carregar o caixão da cunhada do rei. Para se ter uma ideia da ingenuidade do chefe templário, ele tinha pedido ao papa, no mesmo ano, que investigasse alguns boatos caluniosos contra os templários; provavelmente, já era a campanha difamatória de Filipe em acção. A acusação oficial era previsível: heresia. Crimes “horríveis de contemplar, terríveis de ouvir, uma obra abominável, uma desgraça detestável, uma coisa quase inumana, na verdade desprezada por toda a humanidade”, diz a ordem de prisão.

A linguagem usada revela que se tratava realmente de uma perseguição política. Era uma receita prática para se livrar de gente incómoda. As mesmas acusações (renegar Cristo e cuspir em imagens do Crucificado, praticar sodomia ritual e adorar um misterioso ídolo de três cabeças ou com forma de gato ou bode chamado Baphomet) aparecem, com poucas mudanças, em todos os outros processos contra heréticos da época.”

Revista “Super Interessante”, nº 97, Maio de 2006