“O município de Tomar, por tantos títulos célebre nos anos da história pátria, acaba de corresponder dignissimamente ao apelo do partido liberal, celebrando o primeiro centenário do grande estadista, Marquês de Pombal, com o esplendor próprio da magnitude do sentimento, que aquela apoteose simbolizava.
No dia 8 do corrente, pelas 7 horas da tarde, mais de três mil pessoas, que desta cidade e dos arredores haviam acorrido para assistir aos festejos, enchiam literalmente a formosa Praça em que se acham erectos os edifícios manuelinos dos Paços do Conselho e a monumental igreja de S. João Baptista, decorada com o seu elegantíssimo portal gótico, e interiormente com a sua singela arquitectura características daquela brilhante época da arte portuguesa.
A vasta sala das sessões da Câmara achava-se iluminada e adornada com festões de era, flores e numerosos troféus de bandeiras, tendo no centro legendas alusivas aos diversos actos do Marquês de Pombal. No topo da sala e junto à mesa das conferências, erguia-se o busto do célebre homem de estado. Todo este conjunto atraía a atenção dos circunstantes, que, cheios de admiração por aquele espectáculo novo, a visitavam com curiosidade.
À hora anunciada, 8 da noite, começou a deslizar o cortejo, seguindo pela rua Direita da Várzea Grande, rua da Graça, Levada, Corredoura até à Praça Nova, onde em sala abobadada dos Paços do Conselho se acha instalada a biblioteca municipal, que naquele acto ia ser inaugurada, como justo preito de homenagem à memória do Marquês de Pombal, o grande reformador da instrução em Portugal, e o que é mais, o iniciador da reforma dos estudos na velha Europa do século XVIII.
A banda marcial de uma filarmónica rompia a marcha à frente do cortejo, que imponente, deslizava alumiado pela fantástica luz de cem archotes.
Seguia-se a corporação dos bombeiros voluntários da fábrica de fiação, elegantemente fardados, e conduzindo uma das bombas, com escada, e convenientemente decorada; e por sua ordem as seguintes corporações:
Quatrocentas raparigas, operárias, que acompanhavam o carro da Indústria, apresentado pela mesma fábrica, decorado com uma estátua empunhando um martelo, e ornamentado elegantemente com instrumentos pertencentes a vários misteres, marchavam em vários agrupamentos, segundo as diversas oficinas a que pertenciam; seguindo-se os chefes das mesmas oficinas e o pessoal superior da administração;
O carro da agricultura, representado por uma semeadora de moderno sistema, elegantemente ornamentado com espigas e instrumentos de lavoura, e seguido pelos guardas campestres uniformizados, pela comissão representante da agricultura do concelho, e por vários agricultores que a ela se haviam reunido;
Seguia-se-lhe o carro da arte, tendo a forma de um pedestal de cantaria elegantemente ornado com ferramentas pertencentes às diversas artes e ofícios; flores e bandeiras, sobre uma elegante máquina de serralharia. Grande número de industriais e artistas seguiam este carro.
Após estes, tomou o seu lugar o corpo comercial, e logo atrás marchava o carro da ciência, de forma piramidal tendo no vértice um globo geográfico e na base, em volta, um pequeno prelo de ferro, repousando sobre jornais de várias terras do país, pilhas de livros artisticamente dispostos, mapas e diversos objectos de estudo, tendo ainda nas suas quatro faces diversos emblemas científicos, legendas, coroas de louro, flores e troféus de bandeira. Este carro era acompanhado pela Comissão de Instrução Pública, constituído pelo digno sub-inspector do círculo, professores secundários e primários; a que se haviam reunido vários outros professores públicos e particulares de todo o concelho.
Direcções de diversas associações de beneficiência e recreativas.
A junta da paróquia.
A direcção do Centro Democrático Eleitoral Thomarense.
O administrador do concelho, substituto.
A Câmara Municipal, o seu pendão desfraldado; diversos cavalheiros convidados, e uma outra filarmónica, que era seguido pelo enorme concurso do povo que de longe e da cidade correra a presenciar aquele acto extraordinário.
Se foi nobre, digno e levantado o pensamento da benemérita Câmara de Tomar, dando aos seus munícipes o estranho espectáculo do cortejo cívico, o povo tomarense não foi menos digno pela sensata percepção com que assistiu àquela festa patriótica destinada a elevar o espírito público à compreensão dos seus direitos e deveres na grande obra comum civilizadora.
Era realmente soberbo o cortejo atravessando imponente as ruas da cidade, e simbolizando o augusto princípio da gratidão que os cidadãos de todas as classes prestavam à memória de um estadista ilustre pelas suas obras. São estas as procissões do futuro e esta a crença que há-de estreitamente ligar por largo tempo os membros das sociedades.
A Praça e as ruas do trânsito brilhantemente iluminadas contribuíam para o esplendor da festa.
Chegando o cortejo à nova biblioteca, foi esta inaugurada, assinando-se o auto daquela solenidade, que por muito tempo ficará gravada na memória dos tomarenses juntamente com um sentimento de gratidão ao seu iniciador e aos corajosos colaboradores de instituição tão benemérita.
Findo aquele acto, a câmara municipal, os convidados, entre os quais se achavam muitas senhoras, e numerosíssimo concurso do povo, subiram à grande sala de sessões, onde foram proferidos discursos apropriados pelos Srs. Dr. Afonso Acácio Martins Velho, António dos Reis, Dr. António Teixeira, Francisco Viseu Pinheiro, João Guilherme de Carvalho e José Coelho Pereira, que foram muito aplaudidos.
E assim o povo de Tomar pagou nobremente a grande dívida, de que era credora à memória de um gigantesco vulto da história da pátria, e que tão mal apreciado tem por vezes sido, ou pela ignorância que obscurece a luz do entendimento, ou por negros ódios e mesquinhas vindetas, que há cem anos ainda duram no ânimo dos sucessores daqueles a quem a espada da justiça do grande ministro, animado por uma sublime ideia patriótica, afastou para o lado na sua gloriosa senda.”
Ernesto Loureiro, in “A Verdade”, nº 107, 14 de Maio de 1882, pp. 2 e 3
(via “Cidade de Tomar”, de 9 de Fevereiro de 2007)