126 anos da inauguração da Biblioteca Popular de Tomar
“O município de Tomar, por tantos títulos célebre nos anos da história pátria, acaba de corresponder dignissimamente ao apelo do partido liberal, celebrando o primeiro centenário do grande estadista, Marquês de Pombal, com o esplendor próprio da magnitude do sentimento, que aquela apoteose simbolizava.
No dia 8 do corrente, pelas 7 horas da tarde, mais de três mil pessoas, que desta cidade e dos arredores haviam acorrido para assistir aos festejos, enchiam literalmente a formosa Praça em que se acham erectos os edifícios manuelinos dos Paços do Conselho e a monumental igreja de S. João Baptista, decorada com o seu elegantíssimo portal gótico, e interiormente com a sua singela arquitectura características daquela brilhante época da arte portuguesa.
A vasta sala das sessões da Câmara achava-se iluminada e adornada com festões de era, flores e numerosos troféus de bandeiras, tendo no centro legendas alusivas aos diversos actos do Marquês de Pombal. No topo da sala e junto à mesa das conferências, erguia-se o busto do célebre homem de estado. Todo este conjunto atraía a atenção dos circunstantes, que, cheios de admiração por aquele espectáculo novo, a visitavam com curiosidade.
À hora anunciada, 8 da noite, começou a deslizar o cortejo, seguindo pela rua Direita da Várzea Grande, rua da Graça, Levada, Corredoura até à Praça Nova, onde em sala abobadada dos Paços do Conselho se acha instalada a biblioteca municipal, que naquele acto ia ser inaugurada, como justo preito de homenagem à memória do Marquês de Pombal, o grande reformador da instrução em Portugal, e o que é mais, o iniciador da reforma dos estudos na velha Europa do século XVIII.
A banda marcial de uma filarmónica rompia a marcha à frente do cortejo, que imponente, deslizava alumiado pela fantástica luz de cem archotes.
Seguia-se a corporação dos bombeiros voluntários da fábrica de fiação, elegantemente fardados, e conduzindo uma das bombas, com escada, e convenientemente decorada; e por sua ordem as seguintes corporações:
Quatrocentas raparigas, operárias, que acompanhavam o carro da Indústria, apresentado pela mesma fábrica, decorado com uma estátua empunhando um martelo, e ornamentado elegantemente com instrumentos pertencentes a vários misteres, marchavam em vários agrupamentos, segundo as diversas oficinas a que pertenciam; seguindo-se os chefes das mesmas oficinas e o pessoal superior da administração;
O carro da agricultura, representado por uma semeadora de moderno sistema, elegantemente ornamentado com espigas e instrumentos de lavoura, e seguido pelos guardas campestres uniformizados, pela comissão representante da agricultura do concelho, e por vários agricultores que a ela se haviam reunido;
Seguia-se-lhe o carro da arte, tendo a forma de um pedestal de cantaria elegantemente ornado com ferramentas pertencentes às diversas artes e ofícios; flores e bandeiras, sobre uma elegante máquina de serralharia. Grande número de industriais e artistas seguiam este carro.
Após estes, tomou o seu lugar o corpo comercial, e logo atrás marchava o carro da ciência, de forma piramidal tendo no vértice um globo geográfico e na base, em volta, um pequeno prelo de ferro, repousando sobre jornais de várias terras do país, pilhas de livros artisticamente dispostos, mapas e diversos objectos de estudo, tendo ainda nas suas quatro faces diversos emblemas científicos, legendas, coroas de louro, flores e troféus de bandeira. Este carro era acompanhado pela Comissão de Instrução Pública, constituído pelo digno sub-inspector do círculo, professores secundários e primários; a que se haviam reunido vários outros professores públicos e particulares de todo o concelho.
Direcções de diversas associações de beneficiência e recreativas.
A junta da paróquia.
A direcção do Centro Democrático Eleitoral Thomarense.
O administrador do concelho, substituto.
A Câmara Municipal, o seu pendão desfraldado; diversos cavalheiros convidados, e uma outra filarmónica, que era seguido pelo enorme concurso do povo que de longe e da cidade correra a presenciar aquele acto extraordinário.
Se foi nobre, digno e levantado o pensamento da benemérita Câmara de Tomar, dando aos seus munícipes o estranho espectáculo do cortejo cívico, o povo tomarense não foi menos digno pela sensata percepção com que assistiu àquela festa patriótica destinada a elevar o espírito público à compreensão dos seus direitos e deveres na grande obra comum civilizadora.
Era realmente soberbo o cortejo atravessando imponente as ruas da cidade, e simbolizando o augusto princípio da gratidão que os cidadãos de todas as classes prestavam à memória de um estadista ilustre pelas suas obras. São estas as procissões do futuro e esta a crença que há-de estreitamente ligar por largo tempo os membros das sociedades.
A Praça e as ruas do trânsito brilhantemente iluminadas contribuíam para o esplendor da festa.
Chegando o cortejo à nova biblioteca, foi esta inaugurada, assinando-se o auto daquela solenidade, que por muito tempo ficará gravada na memória dos tomarenses juntamente com um sentimento de gratidão ao seu iniciador e aos corajosos colaboradores de instituição tão benemérita.
Findo aquele acto, a câmara municipal, os convidados, entre os quais se achavam muitas senhoras, e numerosíssimo concurso do povo, subiram à grande sala de sessões, onde foram proferidos discursos apropriados pelos Srs. Dr. Afonso Acácio Martins Velho, António dos Reis, Dr. António Teixeira, Francisco Viseu Pinheiro, João Guilherme de Carvalho e José Coelho Pereira, que foram muito aplaudidos.
E assim o povo de Tomar pagou nobremente a grande dívida, de que era credora à memória de um gigantesco vulto da história da pátria, e que tão mal apreciado tem por vezes sido, ou pela ignorância que obscurece a luz do entendimento, ou por negros ódios e mesquinhas vindetas, que há cem anos ainda duram no ânimo dos sucessores daqueles a quem a espada da justiça do grande ministro, animado por uma sublime ideia patriótica, afastou para o lado na sua gloriosa senda.”
Ernesto Loureiro, in “A Verdade”, nº 107, 14 de Maio de 1882, pp. 2 e 3
(via “Cidade de Tomar”, de 9 de Fevereiro de 2007)
