“GUERREIROS DE CRISTO” (X)
“Um dos projectos do rei era unir as duas ordens numa única, de preferência tendo-o a si próprio como grão-mestre, e liderar uma nova cruzada para retomar Jerusalém. O plano não foi por diante e Filipe decidiu tomar medidas drásticas: em 1307, ordenou secretamente a prisão dos 15 mil templários de França.
As razões exactas pelas quais o rei de França decidiu acabar com o Templo não são muitas claras, mas tudo indica que ele queria tomar posse das consideráveis propriedades dos templários e talvez visse as derrotas na Terra Santa como uma deixa propícia para atacar.
O próprio Jacques de Molay foi preso, dias depois de ajudar a carregar o caixão da cunhada do rei. Para se ter uma ideia da ingenuidade do chefe templário, ele tinha pedido ao papa, no mesmo ano, que investigasse alguns boatos caluniosos contra os templários; provavelmente, já era a campanha difamatória de Filipe em acção. A acusação oficial era previsível: heresia. Crimes “horríveis de contemplar, terríveis de ouvir, uma obra abominável, uma desgraça detestável, uma coisa quase inumana, na verdade desprezada por toda a humanidade”, diz a ordem de prisão.
A linguagem usada revela que se tratava realmente de uma perseguição política. Era uma receita prática para se livrar de gente incómoda. As mesmas acusações (renegar Cristo e cuspir em imagens do Crucificado, praticar sodomia ritual e adorar um misterioso ídolo de três cabeças ou com forma de gato ou bode chamado Baphomet) aparecem, com poucas mudanças, em todos os outros processos contra heréticos da época.”
Revista “Super Interessante”, nº 97, Maio de 2006
