“O CODEX 632″ (I)
“O permanente arrulhar dos pombos enchia a Praça da República de uma musicalidade gorgulhante; eram pássaros gordos, bem alimentados, a debicarem pela calçada e a esvoaçarem em saltos, adejando de um lado para o outro, enchendo os telhados, cobrindo as pequenas saliências nas fachadas, pendurando-se na estátua de D. Gualdim Pais, a enorme figura de bronze erguida no ponto central do largo.
Alguns pombos passeavam junto aos pés de Tomás, ronronando, indiferentes ao homem sentado no banco de madeira, apenas preocupados em detectarem mais umas saborosas migalhas pelo empedrado negro e branco que cobria quase toda a praça, mais pareciam minúsculos peões pardos a deambularem por um gigantesco tabuleiro de xadrez. O visitante olhou em redor, apreciando o elegante edifício dos Paços do Concelho de Tomar e todo o terreiro central até prender a sua atenção na original igreja gótica à direita, era a Igreja de São João Baptista; a fachada branca de cal desgastada do santuário ostentava um elegante portal manuelino, muito trabalhado, rematado por um coruchéu octogonal; sobre a igreja impunha-se a vizinha torre sineira amarelo-torrada, um imponente campanário cor de terra que ostentava com orgulho um trio simbólico por baixo dos sinos, reconheciam-se ali o brasão real, a esfera armilar e a cruz da Ordem de Cristo.”
“O Códex 632″, José Rodrigues dos Santos, pp. 430, 431

